 haver
dúvida, Aemon recebeu cartas da Cidadela, com
descobertas que estão de acordo com as dele próprio.
O fim do verão olha-nos nos olhos - Mormont
estendeu um braço e agarrou com força a mão de
Tyrion. - Tem de fazê-los compreender. Digo-lhe,
senhor, a escuridão está chegando. Há coisas
selvagens nos bosques, lobos gigantes, mamutes e
ursos-da-neve do tamanho de auroques, e vi formas
mais escuras nos meus sonhos.
- Nos seus sonhos - repetiu Tyrion, pensando na
urgência que tinha de outra bebida forte. Mormont
estava completamente surdo à voz do anão.
- Os pescadores da região de Atalaialeste
vislumbraram caminhantes brancos na costa.
Daquela vez, Tyrion não conseguiu segurar a língua.
- Os pescadores de Lanisporto vislumbram sereias
com frequência.
- Denys Mallister escreve que o povo da montanha
está se deslocando para o sul, passando pela Torre
Sombria em maior número que em qualquer época.
Estão fugindo, senhor..., mas fugindo de quê? - Lorde
Mormont dirigiu-se à janela e olhou perdido para a
noite. - Estes meus ossos são velhos, Lannister, mas
nunca sentiram um arrepio como este. Conte ao rei o
que eu digo, rogo-lhe. O inverno está para chegar, e
quando a Longa Noite cair, só a Patrulha da Noite
se erguerá entre o reino e a escuridão que vem do
norte. Que os deuses nos protejam a todos se não
estivermos preparados.
- Que os deuses protejam a mim se não dormir um
pouco esta noite. Yoren está decidido a partir ao
raiar do dia - Tyrion pôs-se em pé, sonolento do
vinho e farto de destinos lúgubres. - Agradeço-lhe
por todas as cortesias que me concedeu, Senhor
Mormont.
- Diga-lhes, Tyrion. Diga-lhes e os faça acreditar.
Este é todo o agradecimento de que preciso -
assobiou e o corvo foi empoleirar-se em seu ombro.
Mormont sorriu e deu à ave algum milho que tirou
do bolso, e foi assim que Tyrion o deixou.
Estava um frio de rachar lá fora. Bem enrolado nas
espessas peles, Tyrion Lannister calçou as luvas e
acenou com a cabeça para os pobres desgraçados que
montavam guarda à porta da Torre do Comandante.
Atravessou o pátio na direção de seus aposentos na
Torre do Rei, caminhando o mais vivamente que
suas pernas permitiam. Aglomerados de neve
rangiam debaixo dos seus pés quando as botas
quebravam a crosta noturna, e a respiração
condensava-se à sua frente como um estandarte.
Enfiou as mãos embaixo dos braços e caminhou mais
depressa, rezando para que Morrec se tivesse
lembrado de aquecer sua cama com tijolos quentes
retirados da lareira.
Por trás da Torre do Rei, a Muralha cintilava à luz
da lua, imensa e misteriosa. Tyrion parou por um
momento para olhá-la. As pernas doíam-lhe do frio e
da pressa.
De repente, foi assaltado por uma estranha loucura,
um desejo de olhar mais uma vez para lá do fim do
mundo. Seria sua última oportunidade, pensou; no
dia seguinte iria se dirigir para o sul, e não era capaz
de imaginar um motivo para alguma vez querer
regressar àquela gelada desolação. A Torre do Rei
estava à sua frente, com sua promessa de calor e de
uma cama suave, mas Tyrion deu por si caminhando
para lá dela, na direção da vasta paliçada de cor
clara da Muralha.
Uma escada de madeira subia a face sul, ancorada
em enormes vigas rudemente talhadas, que
penetravam profundamente no gelo. Ziguezagueava
para um lado e para o outro, escalando a muralha
tão torta como um relâmpago. Os irmãos negros
tinham-lhe assegurado que era muito mais forte do
que parecia, mas as pernas de Tyrion estavam com
cãibras demais para que sequer pensasse em subi-la.
Em vez disso, dirigiu-se à gaiola de ferro junto ao
poço, pulou para dentro dela e puxou com força a
corda do sino, três sacudidelas rápidas.
Teve de esperar o que pareceu ser uma eternidade
ali, atrás das grades e com a Muralha nas costas.
Tempo suficiente para começar a interrogar-se sobre
o motivo que o levava a fazer aquilo. Estava quase
decidido a esquecer aquele súbito capricho e ir para
a cama quando a gaiola deu um solavanco e começou
a subir.
Subiu lentamente, a princípio com paradas e
arranques, mas depois mais suavemente. O chão
desapareceu por baixo de seus pés, a gaiola oscilou e
Tyrion enrolou as mãos nas grades de ferro.
Conseguia sentir o frio do metal mesmo através das
luvas. Percebeu, com aprovação, que Morrec tinha
um fogo a arder no seu quarto, mas a torre do
Senhor Comandante estava às escuras. Parecia que o
Velho Urso tinha mais juízo do que ele.
E, então, viu-se acima das torres, ainda subindo
lentamente. Castelo Negro jazia abaixo de si,
delineado ao luar. Dali, via-se bem como era um
lugar rígido e vazio, com suas torres sem janelas,
muros em ruínas, pátios entupidos de pedra partida.
Mais longe, conseguia ver as luzes da Vila da
Toupeira, um pequeno povoado a meia légua para
sul ao longo da estrada do rei, e aqui e ali a
cintilação brilhante do luar na água onde córregos
gelados desciam dos cumes das montanhas e
cortavam as planícies. O resto do mundo era um
vazio desolado de colinas varridas pelo vento e
campos pedregosos manchados de neve.
- Sete i